Gato e raposa andavam de sociedade a correr o mundo, pilhando capoeira e ninhos. Muito amigos, apesar de que a raposa volta e meia dava trela à gabolice, depreciando o compadre.
-- Afinal de contas, meu caro, não és dos bichos mais bem aquinhoados pela natureza. Só tens um truque para iludir os cães: trepar em árvores.
-- E é quanto me basta. Vivo muito bem assim e não troco esta minha habilidade pela tua coleção inteira de manhas.
A raposa sorriu compassivamente. Ora, o gato a desfazer dela, dona de cem manhas, cada qual melhor! E recordou lá consigo que sabia iludir os cães de mil maneiras, ora fingindo-se morta, ora escondendo-se nas folhas secas, já disfarçando as pegadas, já correndo em ziguezague. Recordou todos os truques clássicos. Enumerou-os. Chegou a contar noventa. E chegaria a contar cem, se o rumor duma acuação lhe não viesse interromper os cálculos.
-- Eis aí a tua cachorrada – disse o gato, marinhando pela árvore acima. – Aplica lá teus inúmeros recursos, que o meu recursozinho único já está aplicado.
A raposa, perseguida de perto, disparou como um foguete pelos campos afora, pondo em prática, um por um, todos os recursos da sua coleção.
Mas foi inútil. Os cães eram mestres; não lhe deram trégua, inutilizam-lhe as mais engenhosas manhas e acabaram por ferrá-la.
Só então se convenceu -- muito tarde!... – de que é preferível saber bem uma coisa só a saber mal noventa coisas diversas.
3 de fevereiro de 2010
Certo burro de idéias, cansado de ser burro, deliberou fazer-se leão.
_ Mas como, estúpida criatura?
_ Muito bem. Há ali uma pele de leão. Visto-a e pronto! Viro leão. Assim fez. Vestiu-a e pôs-se a caminhar pela floresta, majestosamente, convencido de que era o rei dos animais.
Não demorou muito e apareceu o dono.
_ Vou pregar-lhe o maior susto da vida, pensou lá consigo o animalejo _ e lançado-se à frente do homem desferiu um formidável urro. Em vez de urro, porém, saiu o que podia sair e um burro: um zurro.
O homem desconfiou.
_ Leão que zurra!... Que história é esta?
Firmou a vista logo notou que o tal leão tinha orelhas de asno.
_ Leão que zurra e tem orelhas de asno há de ser o raio do Cuitelo que me fugiu ontem do pasto. Grandissíssimo velhaco! Espera aí...
E agarrou-º Tirou-lhe a pele de leão, dobrou-a, fez dela um pelego, e, montando no pobre bicho, tocou-o para casa no trote.
_ Toma, leão duma figa! Toma... e pregava-lhe valentes lambadas.
Moral da história: Quem vestir pele de leão, nem zurre nem deixe as orelhas de fora.
Emília era obrigada a explicar tudo, tudo...
_ Oh! – disse ela, você não imagina como é interessante a língua
que falamos aqui! As palavras da nossa língua servem para indicar coisas, mas, como às vezes a mesma palavra indica várias coisas diferentes, saem os maiores embrulhos. O tal cabo, por exemplo. Ora é isso, ora é aquilo. Há os cabos de faca, de bule, de panelas, como eu já disse, que são as pontas por onde a gente pega nesses objetos. Há os cabos de geografia, que são por onde a gente pega nesses objetos. Há os cabos do exército, que são soldados. Há os cabos submarinos, que são uns fios de cobre compridíssimos por meio dos quais os homens passam telegramas dum continente a outro por dentro dos mares. e há um tal "dar cabo" que é destruir qualquer coisa.
_ Mas por que é assim?
_ Para atrapalhar a gente. Eu penso que todas as calamidades do
mundo vêm da língua. Se os homens não falassem, tudo correria muito bem, como entre os animais que não falam. As formigas e as abelhas, por exemplo. Esses bichinhos vivem na maior ordem possível, com suas comidinhas a hora e a tempo _ e que comidas! O mel é uma perfeição que você nem sonha! Exatinho da cor de seus cabelos, mas sem cachos; em vez de cachos tem favos. E qual o segredo da felicidade desses animaizinhos? Um só: não falam. No dia em que derem de falar, adeus ordem, adeus paz, adeus mel! A língua é a desgraça dos homens na Terra.
_ Se é assim, por que eles não cortam a língua?
Emília ria-se, ria-se.
_ Cortar a língua? Essa palavra língua quer dizer duas coisas: um órgão da boca, onde está localizado o paladar, e também a fala dos homens. Há língua do Rio Grande, que vêm em latas e servem para comermos, e há as línguas da falação – a língua italiana, a grega, a portuguesa, a inglesa. Estas não servem para comer _ só para armar bate-boca.
_ Que é isso?
_ Brigas sonoras. Antes de brigar com socos e tapas e tiros, as criaturas brigam com desaforos.
_ Que é desaforo?
_ Desaforo é fazer certos elogios a uma pessoa. Vou dar um exemplo. Temos por aqui um animal chamado cachorro ou cão, bicho de muito bons sentimento, o mais amigo do homem. É tão dedicado e amoroso, que o consideram o símbolo da fidelidade. É o cão que guarda os quintais contra os homens ladrões. é o cão que descobre a caça no mato. é o cão que puxa o trenó nas regiões só de gelo. (...) O cão é um colosso. Pois bem. Quando um homem compara outro homem ao cão, dizendo: "Tu és um cão", o outro puxa a faca. Desaforo é isso...
A coruja e a águia , depois de muita briga , resolveram fazer as pazes.
__ Basta de guerra, disse a coruja. O mundo é grande, e tolice maior que o mundo é andarmos a comer os filhotes uma da outra.
__ Perfeitamente, respondeu a águia. Também não quero outra coisa.
__ Nesse caso, combinamos isto: de agora em diante, não comerás nunca os meus filhotes.
__ Muito bem. Mas como posso distinguir os teus filhotes?
__ Coisa fácil. Sempre que encontrares uns borrachos lindos, bem feitinhos de corpo, alegres, cheios de uma graça especial que não existe em filhote de nenhuma outra ave, já sabes que são os meus.
__ Está feito! Concluiu a águia.
Dias depois, andando à caça, a águia encontrou um ninho de três mostrengos, que piavam de bico aberto.
__ Horríveis bichos! Disse ela. Vê-se logo que não são os filhotes da coruja.
E comeu-os. Mas eram os filhos da coruja. Ao regressar à toca, a triste mãe chorou amargamente o desastre e foi ajustar contas com a rainha das aves.
__Quê?! Disse a águia admirada. Eram teus filhotes aqueles monstrenguinhos? Pois olha, não se pareciam nada com o retrato que deles fizeste...