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A Narrativa de Machado de Assis

Por que Machado de Assis é considerado o maior escritor brasileiro?
Machado de Assis
Se José de Alencar conseguiu estabelecer o romance como um gênero literário de respeito no Brasil, foi Joaquim Maria Machado de Assis quem elevou a prosa brasileira ao nível das melhores escritas mundiais em sua época. Sua obra almeja não apenas divertir, moralizar ou afirmar valores nacionais, mas esmiuçar o espírito humano, fazendo refletir sobre valores universais, sem jamais perder de vista a realidade brasileira. Antecipando procedimentos modernistas e descobertas da psicanálise, o texto ácido e irônico de Machado de Assis coloca a literatura brasileira em um patamar jamais antes atingido. Outros escritores destacam-se na literatura realista brasileira, como Artur Azevedo, seu irmão Aluísio Azevedo e Raul Pompéia. Mas nenhum construiu uma obra tão abrangente e profunda. Nenhum conseguiu conferir ao escritor brasileiro uma respeitabilidade tão grande quanto o fundador da Academia Brasileira de Letras.
1. O Realismo brasileiro Machado de Assis é, sem dúvida, o grande nome do Realismo no Brasil. Mas outros escritores se destacam nesse movimento literário, entre eles o bem-humorado Artur Azevedo, seu irmão naturalista Aluísio e o sensível Raul Pompéia.
Artur Azevedo
1a. Artur Azevedo (1855-1908) Nascido em São Luís, no Maranhão, foi para a Capital Federal aos 18 anos. Logo se engajou em frenética produção, tanto em jornais quanto no teatro. Trabalhou sob as ordens de Machado de Assis na burocracia federal e alcançou enorme sucesso com seus contos curtos e humorísticos, escritos em estilo ágil e simples. O volume Contos Fora de Moda (1894) reúne algumas de suas melhores composições. Tornou-se também um dos mais encenados dramaturgos de seu tempo, produzindo centenas de peças curtas e humorísticas.
A Capital Federal (1897) é o grande destaque da obra teatral de Artur Azevedo, herdeiro do teatro de costumes de Martins Pena (1815-1848).

Artur Azevedo foi acusado de ser um dos responsáveis pela decadência do teatro, por enveredar por uma comédia ligeira. Também recaiu sobre a sua prosa leve e bem-humorada a falha da superficialidade. Mas, sem dúvida, sua obra é uma das mais reveladoras do Brasil do final do século 19.
Aluísio Azevedo
1b. Aluísio Azevedo (1857-1913) Irmão de Artur Azevedo, dedicou-se quando jovem à pintura. Estimulado pelo sucesso do irmão, juntou-se a ele no Rio de Janeiro, onde publicou charges em diversos jornais. Com a morte do pai, retornou a São Luís e passou a dedicar-se à literatura.
Publica um romance romântico, Uma Lágrima de Mulher(1880), mas no ano seguinte surpreende os leitores com o primeiro romance naturalista da literatura brasileira: O Mulato, em que descreve as mazelas da sociedade de São Luís.
Muda-se definitivamente para o Rio de Janeiro, onde tenta viver da literatura durante anos. Escreve alternadamente romances românticos bastante piegas e obras-primas da literatura naturalista, comoCasa de Pensão (1884), O Homem (1887) e O Cortiço (1890). Sem conseguir obter o sucesso e os recursos de que gostaria, em 1895 ingressa na carreira diplomática e abandona definitivamente a literatura. Viveu durante anos na Europa e morreu em Buenos Aires, em 1913.
1c. Raul Pompéia (1863-1895) Jovem sensível e atormentado, o fluminense Pompéia ganhou notoriedade com o romance O Ateneu(1888), de inegável teor autobiográfico.
Para lembrar:
Reconstruindo os sofrimentos vivenciados no famoso Colégio Abílio, Raul Pompéia escreve o primeiro grande romance sobre a adolescência no Brasil. Seu alter ego, o garoto Sérgio, ingressa no Colégio Ateneu, dirigido pelo cruel e hipócrita Aristarco, onde 'vai encontrar o mundo'.
O livro constrói um mundo caricatural e grotesco em que não cabem sua sensibilidade vagamente artística ou a postura carinhosa carregada de vaga sensualidade de Ema (anagrama de mãe ou referência à Emma de Flaubert?). O estilo do romance mescla a sutileza psicológica realista (quando Serginho se autodescreve com suaves tintas impressionistas) à rudeza descritiva da podridão social naturalista (quando ele nos apresenta seus colegas e mestres com fortes pinceladas expressionistas). Raul Pompéia suicidou-se aos 32 anos.
Desenho litografado do Largo do Rocio, Rio de Janeiro. O local era um importante centro social no tempo de Machado de Assis.
2. Machado de Assis – gênio que veio do morro nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) era filho de mulato em uma sociedade ainda escravocrata. Pobre, gago e epiléptico, nada indicaria que ele teria, ao morrer em 1908, um enterro de estadista, seguido por milhares de admiradores pelas ruas da cidade em que nasceu, viveu e morreu. Autodidata, aos 15 anos começa a trabalhar em tipografias, onde conhece escritores importantes, como Manuel Antônio de Almeida. Em 1855, inicia sua carreira literária com a publicação de um poema na revistaMarmota Fluminense. Consegue, logo depois, um emprego na Secretaria da Fazenda. Trabalha a vida toda na burocracia, na qual vai galgando posições até ser ministro substituto. Contribui para diversos jornais e revistas e, com a publicação de seus livros de poesia, contos e romances, vai ganhando notoriedade e respeito. Em 1869, casa-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, enfrentando grande preconceito racial por parte da família da noiva.
Em 1876, antes mesmo de publicar a parcela mais significativa de sua obra, já é considerado, na companhia de José de Alencar, um dos maiores escritores brasileiros. Em 1881 inicia a publicação de seus romances realistas. Em 1896, é um dos principais responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras, da qual é eleito presidente vitalício.

Em 1904, morre Carolina. Quatro anos depois, Machado de Assis, consagrado como o maior escritor brasileiro, é enterrado com pompa no Rio de Janeiro. O mulato pobre do Morro do Livramento tornara-se um dos homens mais respeitados do país.
3. O poeta Machado de Assis iniciou sua carreira literária como poeta. Seu livro de estreia foi Crisálidas (1864), que lhe conferiu imediato sucesso. Embora sua poesia estivesse muito aquém da prosa que o imortalizou, ele nunca deixou de escrever poemas. Em 1870, lança Falenas; em 1875, Americanas; e, em 1901, as suas Poesias Completas, que ainda não incluem um de seus mais famosos poemas, o belo soneto 'A Carolina', escrito após a morte da esposa.
4. O cronista Seguindo a linha dos textos da coluna Ao Correr da Pena, de José de Alencar, Machado de Assis contribui durante toda a sua carreira com textos breves para jornais, em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do país. Esses textos leves, de temática cotidiana, podem ser considerados precursores da crônica moderna, no século seguinte representada por escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade. A produção do Machado cronista inicia-se já em 1859 e se estende até 1904, com raras interrupções. Sua produção mais madura foi publicada nas colunas do jornal Gazeta de Notícias, para o qual contribui de 1881 a 1904 – Balas de Estalo (1883 a 1885), Bons Dias! (1888 a 1889) – e, principalmente, A Semana(1892 a 1897).

5. O crítico
Também para os jornais, Machado de Assis escreveu textos críticos durante toda a vida. Sua produção infindável envolve ensaios teóricos, como O Passado, o Presente e o Futuro da nossa Literatura (1858), O Ideal do Crítico (1865) e Notícia da Atual Literatura Brasileira – Instinto de Nacionalidade (1873), diversas resenhas críticas importantes, como a do livro O Primo Basílio, de Eça de Queirós (1878), e inúmeras críticas de teatro.
Certidão de nascimento de Joaquim Maria Machado de Assis.

6. O contista
Muito das centenas de contos que Machado de Assis escreveu ao longo da vida se perdeu com o desaparecimento dos números dos jornais em que foram publicados. Outros, apenas agora estão sendo republicados em livro. Sua versatilidade como contista é imensa. Escreveu tanto para os jornais mais 'sentimentaloides' quanto para publicações seriíssimas. A qualidade dos contos variava de acordo com a publicação e com o público leitor a que se destinavam. Entre as coletâneas de contos que publicou, destacam-se Papéis Avulsos (1882), com o grande conto/novela, 'O Alienista', 'Teoria do Medalhão' e 'O Espelho', e Várias Histórias(1896), em que se encontram, entre outras obras-primas da concisão e do impacto narrativo, 'A Causa Secreta', 'A Cartomante' e 'Um Homem Célebre'.

7. A fase romântica
Entre 1872 e 1878, Machado de Assis começa a publicar romances. Ainda muito influenciado pelo amigo e mestre José de Alencar, publica, com regularidade britânica, um romance a cada dois anos. Em Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), temos um Machado ainda romântico, mas antecipando alguns temas e procedimentos de suas obras-primas realistas e, principalmente, conquistando um público leitor que já receberia sua revolução realista com boa vontade.
As obras-primas realistas: a mais importante fase da carreira de Machado de Assis é a que produziu a trilogia de romances realistas publicada no final do século 19.
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) – Além de inaugurar o Realismo brasileiro, apresenta as mais radicais experimentações na prosa do país até então. Narrado por um defunto, de forma digressiva e agressiva, o romance apresenta a vida inútil e desperdiçada do anti-herói Brás Cubas. Utilizando recursos narrativos e gráficos inusitados, Machado surpreende o leitor a cada página com sua ironia cortante e, acima de tudo, com a inteligência que insiste em driblar até o leitor mais perspicaz.
Quincas Borba (1891) – Narra, em terceira pessoa, as desventuras do ingênuo Rubião, herdeiro da fortuna e do cachorro do enlouquecido personagem Quincas Borba, já conhecido do leitor do livro anterior. Por meio desse personagem, cômico em seu despreparo para lidar com as armadilhas da Corte, e trágico em seu destino, Machado ao mesmo tempo ironiza e demonstra as teorias darwinistas tão caras aosnaturalistas. O ensandecido 'humanitismo' de Quincas Borba, herdeiro direto da 'luta pela vida' de Darwin, é sintetizado na frase 'Ao vencedor, as batatas!', e acaba por ser comprovado tragicamente pela exploração do casal Sofia e Palha sobre o provinciano protagonista.
Dom Casmurro (1899) – Apresenta alguns dos personagens mais complexos da literatura universal. Narrado pelo velho Bento Santiago, apelidado Dom Casmurro, o romance apresenta a história de seu relacionamento – namoro, casamento e afastamento – com Capitu, sua vizinha de infância. O narrador esforça-se por demonstrar o caráter ambíguo e dissimulado tanto de sua esposa quanto de seu melhor amigo, o hábil Escobar, para assim justificar sua convicção de ter sido traído por eles. Como prova da traição, apresenta a semelhança que enxerga em seu filho, Ezequiel, com o amigo, que supõe ser o pai da criança. Mas o esforço é vão: se por um lado ele consegue construir a imagem de personagens extremamente complexos, nada nos consegue provar sobre a traição, pois o seu próprio caráter é tão fraco, tão inseguro e titubeante que o leitor passa a desconfiar de seus julgamentos. Assim, além de construir a eterna dúvida (Capitu traiu ou não Bentinho?), Machado de Assis apresenta o primeiro narrador não confiável da literatura brasileira.
(...) Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu, naturalmente; mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. (Machado de Assis, fragmento de texto de Dom Casmurro.)
8. Os últimos romances Os romances Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908) têm o mesmo narrador-personagem, o conselheiro Aires, que pouco age e passa a maior parte da narrativa contemplando placidamente as aventuras amorosas e existenciais dos jovens ao seu redor. A descrição dos dias de perplexidade da população carioca com a Proclamação da República, em Esaú e Jacó, é um dos pontos altos da narrativa machadiana.
Fonte: KlickEducação
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