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Eça de Queirós - A ilustre casa de Ramires

Biografia do autor
1.Biografia
      José Maria d’Eça de Queirós é o maior romancista e prosador da literatura portuguesa na segunda metade do século XIX.
      Nascido em 1845 em Póvoa do Varzim e falecido em 1900 em Paris, sua obra se enquadra dentro dos padrões do Realismo-Naturaslismo tal qual os modelos estabelecidos pela literatura francesa, e, em especial, por Flaubert e Zola.
      Filho de uma relação amorosa considerada ilícita, Eça de Queirós foi criado longe dos pais, e, segundo seus biógrafos e críticos, desde de muito cedo o escritor teria sido marcado pela consciência aguda dos preconceitos e da hipocrisia da sociedade burguesa.

Entre 1861 e 1866 estudou Direito na tradicional Universidade de Coimbra, presenciando - sem participar diretamente - o início da Questão Coimbrã (também conhecida como a Questão do bom senso e do bom gosto), famosa polêmica que introduziu o Realismo em Portugal.
      Entre 1867 e 1872 desenvolveu sua carreira jurídica, paralelamente às atividades de jornalista e escritor. No ano de 1870 participa das famosas Conferências do Cassino, que reafirmam em Portugal o ideário do Realismo. A partir desta data ingressa no serviço diplomático, servindo em vários países até alcançar o cobiçado posto de cônsul em Paris.
      Este contato direto com outros países e culturas mais “avançados” em relação a Portugal talvez tenham acentuado sua compreensão do provincianismo e do atraso do país, intensificando nele o desejo - característico de sua geração - de contribuir para a reforma da pátria.
      No ano de 1886, Eça de Queirós se casa com Emília, filha do Conde de Resende, e se aproxima cada vez mais do ambiente da aristocracia portuguesa. Logo em seguida, em 1889, ingressa num grupo de intelectuais e políticos socialmente bem sucedidos e que, no entanto, se auto designavam como os Vencidos da Vida. Este sentimento de derrota advinha da consciência do fracasso de suas idéias críticas diante da realidade desoladora de Portugal. Em síntese, esse grupo de intelectuais apresentava uma complexidade ideológica bastante comum no final do XIX, fruto de uma mistura de Decadentismo, Niilismo e Aristocracismo, que por sua vez marcará a última fase da produção queirosiana.
      A obra de Eça de Queirós é dividida em três fases. A primeira ainda próxima do espírito romântico, cujo melhor exemplo está em Prosas Bárbaras.
      A segunda, acentuadamente Realista-Naturalista, na qual o autor produz uma crítica ácida e ferina em relação à sociedade e à burguesia portuguesas e seus aspectos mais revoltantes. Nesta fase se encontram os romances mais combativos e virulentos de Eça de Queirós, entre eles O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e A Relíquia .
      Finalmente a terceira fase é marcada por um abrandamento da crítica e por um desejo de reconciliação com Portugal, aqui encontram-se romances famosos como A Ilustre Casa de Ramires e A cidades e as Serras, obras caracterizadas muitas vezes por uma idealização do passado português e por um certo “conservadorismo” ideológico, que surpreende se comparados com a produção anterior do escritor.
      Além disso, ao final da vida o romancista português se dedicou também à produção de hagiografias (biografias de santos), o que também se opõe ao espírito francamente anticlerical de sua produção anterior.
      Eça de Queirós viveu um dos períodos mais contraditórios da história e da literatura portuguesa, e sua obra acompanha de perto as oscilações ideológicas, sociais e culturais de seu tempo.
 
2. Obras:
      O Mistério da Estrada de Sintra ( 1870)
      O Crime do Padre Amaro ( Cenas da Vida Devota) ( 1876)
      O Primo Basílio ( Episódio Doméstico) (1878)
      O Mandarim ( 1880)
      A Relíquia ( 1887)
      Os Maias ( Episódios da Vida Romântica) ( 1888)
      Uma Campanha Alegre ( em colaboração com Ramalho Ortigão, n'As Farpas, 1890-91)
      A ilustre Casa de Ramires ( 1900)
      A Cidade e as Serras ( 1901)
      Contos ( 1902)
      Prosas Bárbaras ( sátira aos costumes social, na Gazeta de Portugal, com Ramalho Ortigão), (1903)
      A Capital ( 1925)
      O Conde de Abranhos e A Catástrofe ( 1925)
      Alves & Cia ( 1926)
      O Egito ( 1926)
      A Tragédia da Rua das Flores ( 1980).
      As três fases do prosador
 
1ª fase ( 1866 a 1875): A primeira fase da carreira literária de Eça de Queirós inicia-se sob a égide do jornalismo, através da publicação de artigos e crônicas na Gazeta de Portugal e termina com a publicação do primeiro romance realista português, em 1876: O Crime do Padre Amaro. Os artigos e crônicas dessa época foram mais tarde reunidos e postumamente publicados sob o nome de Prosas Bárbaras (1903). O autor encontra-se, ainda, sob a influência de Vitor Hugo e Michelet, mas desponta nele a ironia contida nas Farpas e em Uma Campanha Alegre. Constitui a fase menos importante de sua produção, mas já se pode vislumbrar nela o magnífico narrador do futuro.
 
2ª fase ( 1875 a 1887): Aqui encontram-se seus romances realistas-naturalistas. Nela, aparecerão O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio ( 1878), A Relíquia ( 1887), trilogia mais acidamente crítica contra a pequena-burguesia portuguesa. Aderindo à causa republicana, fora de Portugal, pôde criticar largamente as instituições de sua terra e seus inúmeros e intoleráveis vícios: a Monarquia, a Igreja e a burguesia serão atacadas enormemente. Sob a legenda Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia, compõe um painel amplo daquela sociedade que julgava culpada pelo atraso de seu povo: o clero hipócrita, a aristocracia rural acomodada, a burguesia gananciosa, irresponsável e medíocre.
 
3ª fase ( 1887 em diante): Esta é a chamada fase madura do autor; tendo alcançado a maturidade, a crítica aguda vai dar lugar ao nacionalismo, à preocupação moral e um certo otimismo quanto ao que se espera de Portugal. Há um saudosismo dos bons tempos ( ver como exemplo A Ilustre Casa de Ramires ( 1900) ); superando o esteticismo cientificista, aparecerá uma espécie de repúdio ao que é artificial ( A Cidade e as Serras, 1901).
 
3. Escola literária e autor:
      "A obra literária passou a ser considerada utensílio, arma de combate, de reforma e ação social. (...) os realistas pregavam a arte compromissada."
      (Massaud Moisés, in História da Literatura Portuguesa)
      É preciso levar em consideração que houve sempre direcionamentos realistas desde que surgiu a Arte como expressão. Basta, por exemplo, observar que os nossos ancestrais registravam nas paredes das cavernas cenas do dia-a-dia; um pouco mais distante disso a civilização egípcia fazia, embora mais sofisticadamente, esse mesmo registro.
      Na própria França romântica, Balzac e Victor Hugo souberam retratar as misérias de um tempo pós revolução francesa e captaram a face infeliz de uma época de triste memória. Na figura fantástica de um Quasímodo deformado, corcunda, surdo pelo sons dos sinos da Catedral de Notre Dame, desarvorado diante de seus próprios sentimentos, desenha-se um futuro tempo realista; da mesma maneira A Comédia Humana de Balzac capta caracteres, humores, atitudes que nos remetem à compreensão de que esse magistral autor francês era , antes que tudo, um "caçador"de figuras, um fotógrafo de seu tempo.
      Estaremos, no entanto, aqui, nos referindo ao período Realista-Naturalista, segunda metade do século do século XIX. Está claro que essas duas tendências daquele período têm características bem demarcadas entre si. O Realismo propriamente dito é arte mais ligada à análise psicológica, enquanto que o Naturalismo usa mais largamente o cientificismo para compor seus tipos humanos. Mas, posteriormente, vamos nos incumbir de tais diferenças, principalmente no estudo de contos ou romances.
      É importante observar que o Realismo-Naturalismo deu preferência à prosa, embora em Portugal, por exemplo, houvesse poesia realista ( Cesário Verde , poesia do cotidiano)

O romance de Gonçalo Ramires
 
Resumo
      Gonçalo Mendes Ramires retorna - após a conclusão do curso de Direito em Coimbra e após uma breve estadia em Lisboa - para suas terras no interior de Portugal, próximas à cidade de Oliveira e à Vila Clara. Aí reencontra a mesma monotonia provinciana de anos atrás.
      Sua irmã, Graça Ramires, está casada com o rico e simplório José Barrolo, chamado pelos colegas de bacoco, num claro deboche de sua simplicidade de parvo .
      Os seus bons e inseparáveis companheiros, Titó (Antônio Villalobos), João Gouveia (Administrador da aldeia de Vila Clara) e o músico Videirinha - que há muito vem escrevendo um fado, ajudado pelo padre Soeiro, sobre os feitos heróicos da ilustre casa de Ramires - continuam os mesmos. E os criados da casa, Rosa e Bento estão a levar a vida de sempre.
      Acima de tudo, o oprime a mediocridade da vida provinciana e a necessidade imperativa de se impor na vida política nacional, o que lhe parece ser a única saída possível para a sua condição de fidalgo decaído.
      Dentro deste espírito e incitado por um amigo, o José Castanheiro (editor de uma revista a ser lançada em breve e chamada Anais de Literatura e de História), ele resolve escrever uma novela (A Torre de D. Ramires) sobre um velho e ilustre antepassado: Tructesindo Ramires.
      Assim, tendo como cenário os restos da antiga fortificação medieval erguida por seus remotíssimos avós, e que se encontram na sua Quinta de Santa Irinéia, ele se põe a recontar a história de sua casa e de Portugal. Da fortificação resta, na verdade, apenas os escombros da velha torre, como do glorioso passado português resta apenas a recordação .
      Para tal fim Gonçalo lança mão um poema já escrito por um tio materno, que ele - com ajuda de outros livros de inspiração medieval (Alexandre Herculano e Walter Scott) -vai vertendo para uma prosa na maioria das vezes banal. No entanto, a tarefa não é fácil e muitas vezes se torna estafante.
      Paralelamente à escritura da novela, ele se envolve com as atividades do cotidiano, que passam pela administração da quinta, e é obrigado a enfrentar situações que demonstram a fraqueza de seu caráter.
      A mais marcante se dá quando ele se vê obrigado a arrendar a quinta para um lavrador conhecido como José Casco, e empenha sua palavra no negócio. Porém, logo em seguida um outro lavrador melhor qualificado, o Manuel Pereira , lhe oferece uma quantia maior pelo mesmo direito de arrendamento, e Gonçalo aceita a segunda proposta se esquecendo da palavra já empenhada ao Casco.
      Aliás este episódio coincide narrativamente com um momento no qual Gonçalo conta os feitos heróicos de seu longínquo antepassado Tructesindo, que justamente entra num combate para não recuar da palavra empenhada. Aqui Eça de Queirós, através de uma ironia fina, demonstra o caráter frágil desta aristocracia incapaz de dar continuidade à grandeza do passado português. Porém, lentamente Gonçalo caminhará para a redescoberta destes valores heróicos de seu passado, alterando sua trajetória pessoal.
      A transformação de Gonçalo pode ser interpretada como um símbolo do destino Português, e traz elementos típicos do romance de formação.
      Outro fato também o desagrada sumamente: o sucesso político de André Cavaleiro, outrora seu grande amigo, e “namorado” de sua irmã . Gonçalo nutre por ele um ódio que se manifesta publicamente por meio de comentários violentos envolvendo via de regra a bigodeira do Cavaleiro. Este, por sua vez, ocupa agora o lugar de Governador Civil de Oliveira, cargo antes exercido pelo falecido pai de Gonçalo. A ruptura, sem nenhuma justificativa, do namoro existente entre André e Gracinha está na origem desse rancor que os separa.
      Inesperadamente o Deputado Sanches Lucena, velho e rico proprietário da região, falece deixando toda a fortuna para a esposa D. Ana Lucena e uma cadeira vaga no parlamento. Eis a chance tão esperada. No entanto, a indicação para o lugar passa diretamente pela vontade do Governador Civil.
      Aconselhado pelo amigo João Gouveia e movido pelo interesse, ele reata sua amizade com André Cavaleiro, para assombro de toda a cidade. O que não se dá sem que antes ele sofra uma aguda crise de consciência, pois tal reconciliação implica na aproximação entre o Governador e Gracinha, que ainda nutre sentimentos inconfessos pelo antigo namorado. Eis aí a sombra de um possível adultério. Aliás, tema tão caro aos romances da segunda fase de Eça de Queirós.
      Com a reconciliação, começa a campanha de Gonçalo em direção ao parlamento. Porém, em meio aos preparativos, ele surpreende um encontro furtivo entre a irmã e o Cavaleiro. Horrorizado ele se retira para a quinta e se afasta da irmã, do cunhado e do suposto amigo.
      Neste momento, Gonçalo decide retomar a sua narrativa, e passa a considerar a possibilidade de se casar com a viúva do Lucena (agora uma mulher riquíssima), apesar de sentir uma forte repulsa por ela.
      Em meio a todos estes acontecimentos, uma noite Gonçalo tem um pesadelo no qual seus remotíssimos antepassados lhe depositam no colo suas armas e o incitam a seguir-lhes o caminho da bravura. Na manhã que sucede a este pesadelo, Gonçalo resolve sair a cavalo e reencontra acidentalmente um camponês (o valentão Ernesto de Nacejas) que já o havia destratado duas vezes, sem que o fidalgo houvesse esboçado a menor reação de revidar as ofensas sofridas, tal era o seu grau de covardia diante dos perigos da vida.
      Nesta manhã, inexplicavelmente, Gonçalo sente-se tomado de uma energia e de uma coragem que até então lhe eram desconhecidas: ele enfrenta o inimigo com violência, ao ponto de quase desfigurar-lhe a face com um chicote. Depois da luta ele retorna à quinta, e para sua surpresa reencontra a irmã e o cunhado.
      Neste mesmo dia, ao conversar com cunhado, Gonçalo descobre que o Cavaleiro estava ausente de Oliveira há algum tempo. E, portanto, afastado de Graçinha. Reconciliado parcialmente com a própria consciência, ele retoma sua campanha política.
      Lentamente Gonçalo vai descobrindo a simpatia que as pessoas nutrem por sua pessoa e por sua nobre origem, sentimento que ele mal suspeitara até então, e que lhe faz perceber que ele seria eleito mesmo sem a ajuda do Governador Civil.
      Chega o dia da eleição e Gonçalo vence. Nesta mesma noite, ao contemplar o vale do alto da torre iluminada, ele percebe com clareza a mesquinhez de seu caráter e de seus objetivos.
      Alguns meses depois, o fidalgo parte para Lisboa, assume o cargo e começa a levar uma vida mundana, até que inexplicavelmente desiste de tudo e viaja para a Zambézia na África, de onde retorna, quatro anos depois, rico e estabelecido.
 
A novela A Torre de D. Ramires
Resumo
      Gonçalo Mendes Ramires, inspirado num poemeto épico escrito por um tio e publicado num periódico de província (O Bardo), resolve contar os feitos heróicos de sua estirpe, em especial de Tructesindo Ramires.
      Este nobre antepassado de Gonçalo tudo sacrificou, inclusive a vida do próprio filho, para defender a palavra e a honra empenhada.
      Tructesindo Ramires, fiel vassalo e alferes-mor de D. Sancho, jurara a este rei defender a honra e vida da infanta D. Sancha.
      Com a morte do monarca abre-se uma luta pela sucessão e pela afirmação de D. Afonso II no trono de Portugal, e este se indispõe com suas irmãs D. Teresa e D. Sancha.
      A infanta busca ajuda e apoio no rei de Leão e Castela (tradicionais inimigos da nação portuguesa), e convoca o socorro de Tructesindo Ramires. Este atende prontamente ao apelo da infanta - consciente que lutará ao lado de antigos inimigos - e manda seu próprio filho, Lourenço Ramires, a frente de uma primeira força guerreira, enquanto ele próprio prepara um grupo fortemente armado que lhe seguirá.
      Lourenço é interceptado em meio da jornada por um grupo fortemente armado e comandado por Lopo de Baião, o Bastardo, que fora enviado por D. Afonso II, com ordens de impedir o avanço das forças de Tructesindo. No entanto, por atrás deste motivo aparente Lopo de Baião esconde um desejo de vingança pessoal, pois no passado ele havia se apaixonado por D. Violante, filha de Tructesindo, que havia lhe negado a dama em casamento.
      As duas forças se enfrentam duramente, Lourenço sai derrotado, e é feito prisioneiro pelo Bastardo, que em seguida marcha em direção ao castelo dos Ramires. Ao alcançar as fortes muralhas, ele manda um arauto solicitar uma audiência com Tructesindo.
      Durante o diálogo Lopo de Baião tenta demover o velho guerreiro de ajudar a infanta e insiste em alcançar a permissão de se unir a D. Violante. Tructesindo Ramires mostra-se irredutível em relação as duas propostas, e o Bastardo degola impiedosamente Lourenço diante dos olhos do pai. Em seguida, foge com seus guerreiros.
      Tructesindo mantém-se quase imperturbável diante da morte do filho, e sai em busca do covarde assassino. Em meio a perseguição seu grupo chega a uma encruzilhada e o chefe guerreiro ordena que três batedores encontrem a pista de Lobo de Baião.
      Com as informações trazidas por eles, D. Garcia Veigas, o Sabedor - amigo e companheiro fiel de Tructesindo - descobre a estratégia de fuga do Bastardo. Eles também ficam sabendo que há pouca distância está D. Pedro de Castro, amigo do velho Ramires e partem em busca de abrigo em suas terras.
      D. Garcia elabora um plano de captura do traidor covarde. A estratégia é colocada imediatamente em prática e obtém sucesso. Lopo de Baião cai prisioneiro das forças de Tructesindo e é submetido a uma morte humilhante e dolorosíssima: ele é amarado aos restos de uma ponte num lago infestado de sanguessugas que lentamente lhe consomem até a última gota de sangue.
      Interessante é observar que esta cena final, tão adequada ao passado glorioso e guerreiro de Portugal, apresenta também um claro viés Naturalista pela crueza da descrição de aspectos fisiológicos cruéis e repulsivos. A elaboração estética da cena está de acordo com os objetivos de Gonçalo ao escrever sua novela histórica, pois ele desejava dar um forte colorido Realista à narrativa despindo-a das brumas românticas nas quais seu tio havia envolvido a trágica história de Tructesindo Ramires.
 
Análise
 
Gonçalo e Portugal: dois destinos inseparáveis
      A Ilustre Casa de Ramires é um romance de clara dicção realista no qual Eça de Queirós tenta sintetizar na figura de Gonçalo as fraquezas e as grandezas de Portugal, fazendo de seu destino pessoal uma “alegoria” daquilo que lhe parecia ser a única saída possível para os impasses e contradições de um país outrora tão poderoso (Idade Média e Renascimento), e hoje (final do século XIX) tão decaído.
      Na trajetória pessoal de Gonçalo nós encontramos uma interpretação corajosa da alma portuguesa contemporânea de Eça de Queirós. A covardia deste fidalgo, sua pusilanimidade, suas aspirações de um futuro glorioso, suas crises de consciência, tudo é Portugal indeciso diante de seu presente e de seu futuro.
      Assim, o destino de Gonçalo traduz muito daquilo que Eça de Queirós (na fase final de sua produção literária) acreditava ser o caminho viável para o país: a retomada das tradições e do ilustre passado português materializados na veia expansionista e colonialista da nação, outrora um dos maiores impérios do mundo.
      O navio que leva Gonçalo para África chama-se justamente Portugal, e é bom lembrar que este Ramires volta de lá enriquecido e completo na sua transformação iniciada na pátria após o sonho com seus antepassados lhe entregando as armas, e após a vitória sobre o valentão de Nacejas.
      É evidente aqui a profunda releitura da história portuguesa proposta por Eça de Queirós que - após os arroubos de violenta e devastadora crítica presente nos romances de sua segunda fase, no quais não se cansava de fustigar a mediocridade da pátria - se dedica agora a descobrir um caminho possível para a nação.
      Assim, a crítica queirosiana torna-se mais branda e “construtiva” porque é movida por um desejo de compreensão sincera do destino português. O Eça de Queirós incansável, o socialista da primeira hora cede seu lugar a um aristocrata um tanto quanto cínico e irônico, mas não de todo desencantado.
      Nesta fase, seu esforço de crença na nação parece, na maioria da vezes, como ideologicamente comprometido, porém suas enormes qualidades literárias e estilísticas absorvem o leitor para dentro da trama romanesca tão bem urdida a partir das duas narrativas que se completam pela oposição e simbolizam verrossimilmente o destino de Portugal.
      Se na sua fase mais combativa, em especial no Crime do Padre Amaro e no Primo Basílio, Eça de Queirós elabora um crítica contundente da burguesia lisboeta e dos ranços da vida provinciana e de suas instituições hipócritas e aviltantes, atacando a moral vigente e o atraso do país; na sua última fase o autor vai lentamente se aproximando do universo rural, agrário e aristocrático que marca o passado português.
      Assim, ao lado do espírito crítico que nunca abandonou o autor, surge uma idealização do passado português e de suas origens gloriosas que servem então de baliza para o tão almejado futuro que ser quer também glorioso.
      O elogio bucólico do campo e da aristocracia soa na verdade como Sebastianismo mal disfarçado, porém despido do misticismo e do messianismo que sempre o acompanharam.
      Gonçalo, filho de uma casa mais antiga que Portugal, parte em direção à África e de lá volta glorioso e rico, ao contrário de D. Sebastião que movido por seus sonhos de glória acaba enterrado nas areias de deserto.
      Passado e presente, glória e decadência, grandeza e fragilidade estão de tal forma imbricados neste romance como estão na vida lusitana. Esse senso das contradições, que marcavam Portugal na segunda metade do século XIX, é a força motriz que põe em movimento a máquina romanesca e cria o dinamismo interno tão rico e verdadeiro de Gonçalo. E se ao leitor parece utópica e sonhadora a solução encontrada pelo autor para o destino de seu personagem (Gonçalo = Portugal), nem por isso ela deixa de ser uma aspiração da alma lusitana.
 
O diálogo entre a tradição e a decadência de Portugal
      O romance A Ilustre Casa de Ramires foi iniciado no ano de 1894, e sua primeira publicação integral data de 1900, logo após a morte do autor, que não chegou a completar a revisão final do texto. Tal tarefa coube ao escritor Júlio Brandão.
      O tempo da ação do romance é muito provavelmente o mesmo do tempo da escritura, ou seja, a trajetória de Gonçalo se desenvolve na última década do século XIX. Este foi um dos períodos mais crucias e humilhantes da história de Portugal, principalmente por causa do famoso episódio conhecido como Ultimato que se deu no ano de 1890 quando a Inglaterra exigiu a sumária retirada de Portugal de suas legítimas possessões na África. A ordem britânica foi acatada causando no país uma forte comoção pública e uma reação imediatamente xenófoba.
      O Ultimato está diretamente ligado ao avanço imperialista e ao neocolonialismo das grandes nações capitalistas na segunda metade de século XIX, e diante destas nações Portugal se sente impotente e destituído de uma verdadeira estrutura econômica que lhe permitisse competir em pé de igualdade.
      O “atraso” histórico da nação e sua impotência ficou patente naquela manhã de 11 de Janeiro de 1890, e era necessário que Gonçalo lá fosse para trazer de novo a África de volta para Portugal, pelo menos no romance e no imaginário lusitano. Eis A Ilustre Casa de Ramires: compensação simbólica de uma derrota histórica.
      Este romance, como já demonstramos, narra a trajetória do fidalgo Gonçalo Mendes Ramires, filho de uma das casas mais nobres e mais antigas de Portugal, anterior mesmo à fundação da nação. Entre seus antepassados constam heróis portugueses presentes aos feitos mais importantes da história do país e da Europa.
      No entanto, no início da narrativa, Gonçalo representa justamente o oposto deste heroísmo e desta glória passada, pois nada mais é do que um fidalgo sem verdadeiro estofo moral: fraco, covarde e ambicioso, ele busca de todas as formas se projetar no cenário político nacional. Sua maior aspiração é conseguir uma cadeira no parlamento que lhe garantisse a estabilidade social tão desejada.
      Para alcançar seus objetivos iniciais ele é capaz de negociar e jogar com a própria consciência e com os princípios morais aparentemente mais sólidos. Porém, justamente no momento em que ele atinge os seus objetivos e consegue a tão almejada cadeira parlamentar, lhe advém a aguda consciência da mediocridade e da mesquinhez de seus desejos. Após algum tempo de vida mundana e política em Lisboa, ele decida abandonar tudo. Parte para a África e depois de quatro anos retorna a Portugal enriquecido por meio do esforço próprio.
      Paralelamente a esta narrativa - e como já demonstramos - vai sendo tecida uma outra narrativa, levada penosamente a cabo por Gonçalo, pois na sua sede de estabelecer uma reputação política, ele resolve consolidá-la com um perfil intelectual e literário digno de seus dotes morais.
      Assim, influenciado por um antigo amigo da faculdade em Coimbra, ele resolve escrever uma novela histórica de sabor medieval tão ao gosto da literatura do início do século XIX, cuja matéria envolve um episódio heróico em torno de Tructesindo Ramires, um dos seus mais ilustres antepassados. Além de se cobrir de glórias literárias, seu objetivo é recolocar em circulação o próprio nome e sua origem nobre.
      Porém, toda a narrativa de Gonçalo não passa de uma versão em prosa, frouxa e mal elaborada de um poema escrito anos atrás por um tio e publicado num jornal de província. Seus talentos literários não passam da mal dissimulada cópia, como sua estrutura moral não passa de um jogo hábil entre interesse e conveniência social.
      O que surpreende então o leitor neste jogo narrativo queirosiano é justamente a justaposição entre o passado e o presente, ente os “áureos” tempos e o presente decaído. De um lado, temos a mediocridade da vida provinciana e de sua aristocracia decaída. De outro, o passado glorioso de Portugal, mas há muito perdido.
      Romance de formação e narrativa medieval se fundem de tal maneira que são elevados à condição de uma “alegoria” do desejado destino português, que só poderia - ao que parece - ser retomado por meio de uma reconciliação com o passado colonial da nação.
      Gonçalo só se reabilita, moral e pessoalmente, quando decide abandonar Lisboa com toda a sua hipocrisia social, e parte em direção à África.
      Assim, este romance - um dos melhores do autor, do ponto de vista do estilo e da construção romanesca - é na verdade um elogio da Aristocracia e do Colonialismo como elementos restauradores da glória portuguesa, o que não passa de Sebastianismo mal disfarçado, e de desejo de retorno a tempos supostamente mais felizes e heróicos.
      A oscilação existente entre o espírito crítico e combativo da segunda fase e o “conservadorismo” ideológico deste romance da terceira fase de Eça de Queirós marca bem os impasses de toda uma geração empenhada na transformação de Portugal.
 
Linguagem e estilo
      A Ilustre Casa de Ramires é um romance narrado em terceira pessoa, e apresenta um narrador onisciente que constrói e explora com agudeza os conflitos interiores de Gonçalo Mendes Ramires. Seu distanciamento e objetividade permitem ao leitor acompanhar a lenta e progressiva transformação do personagem em direção a sua reabilitação moral e social.
      O narrador queirosiano conduz com eficiência o desenrolar dos meandros da consciência do fidalgo e de seus embates com a vida, e maneja com habilidade inquestionável uma linguagem que oscila entre diversos tons e registros que vão do irônico até o lírico, passando pelo satírico e até pelo épico, orquestrando um universo de referências literárias ilustres dentro da tradição portuguesa e mesmo européia. Paródia, intertextualidade e metalinguagem são peças fundamentais de seu jogo estilístico.
      Assim, há uma recuperação das novelas de cavalaria medievais, que por sua vez foram muito exploradas pelo romance romântico europeu. No romance tal recuperação se dá numa chave crítica que demonstra o desgaste desta tendência e o que nela há de artificial e retórico. Alexandre Herculano e Walter Scott são matéria de recuperação intertextual via paródia e sátira.
      No entanto, é perceptível que o registro satírico e paródico que envolve a novela A Torre de D. Ramires vai sendo lentamente abandonado assumindo uma coloração verdadeiramente épica que demonstra a adesão do narrador, e de Gonçalo, ao passado heróico português, síntese das esperanças de um futuro regenerado.
      À medida que Gonçalo se transforma sua dicção também muda, e com ela a posição do narrador diante da novela medievalista. Isto se dá de tal maneira, que o final glorioso - apesar de violento e bárbaro - da narrativa medieval coincide com a reabilitação de Gonçalo. Aquilo que começara como uma mesquinha necessidade de projeção social e política termina como um hino à nação e a seu passado glorioso que espelharia um futuro também promissor.
      A linguagem de Eça de Queirós apresenta uma consciência crítica da tradição literária lusitana e européia, e espelha as contradições da própria nação.
      Assim, linguagem e representação estética se constituem em função da representação do real histórico, conferindo legitimidade estética a estrutura romanesca, mesmo quando a solução apresentada para o futuro de Gonçalo e de Portugal parece fruto de uma idealização de teor claramente regressivo e conservador.
      Acreditar - no auge da modernidade capitalista - na função redentora da aristocracia e no neocolonialismo como destino histórico de um povo é no mínimo um sonho compatível com uma nação já há muito descartada da competição capitalista das grandes potências européias do século XIX.
      A linguagem realista e irônica (traço marcante de toda obra do autor), numa necessidade de coerência interna com o projeto ideológico apresentado, lentamente cede lugar a um registro épico e restaurador que se opõe ao tom agressivo e irônico combativo da segunda fase de Eça de Queirós.
      Idealização do passado, elogio da aristocracia, defesa do neocolonialismo, adesão à função regeneradora da nobreza são na verdade variantes de uma crença messiânica chamada Sebastianismo, e se constituem no desejo de compensação simbólica diante de uma realidade social e histórica marcada por impasses consideráveis.
      Assim, as oscilações aparentemente contraditórias da linguagem deste romance são na verdade uma síntese do aspecto conflitivo da consciência do fidalgo Gonçalo Mendes Ramires e da sua função de símbolo vivo dos descaminhos de Portugal.
      O estilo deste romance representa uma verdadeira síntese do melhor estilo queirosiano em todas a suas oscilações, e é fruto de um desejo sincero de compreensão profunda do destino português e das possibilidades de superação do sentimento de decadência da pátria tão característico da geração de Eça de Queirós.

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PREDICAÇÃO VERBAL - OBJETO DIRETO E OBJETO INDIRETO
1. (CESCEM-SP) Os pássaros voam na mata.
a) verbo de ligação;                  b) verbo transitivo direto;
c) verbo transitivo indireto;        d) verbo intransitivo;
e) nenhum dos citados.

2. (CESCEM-SP) O aluno ficou contente com o resultado dos estudos.
a) verbo de ligação;                  b) verbo transitivo direto;
c) verbo transitivo indireto;        d) verbo intransitivo;
e) nenhum dos citados.

3. (Uni-Rio-RJ) Assinale a opção correta quanto à predicação atribuída ao verbo sublinhado na passagem do texto.
a) "A casa fica num alto lavado de ventos." - ligação;
b) "Aqui não há encantos." - intransitivo;
c) "... as zínias e os manjericões que levantavam um muro colorido ao pé dos estacotes" - transitivo direto e indireto;
d) "Sim, só comparo o Nordeste à Tera Santa." - intransitivo;
e) "... em torno do qual gravitam as plantas, os homens e os bichos." - intransitivo.

4. (Medicina Itajub…

Interpretação de texto–Enem–com gabarito

Teste seus conhecimentos resolvendo 12 questões de interpretação de texto para o Enem.



01. O texto a seguir foi extraído de um romance brasileiro. A partir de sua leitura, é possível extrair traços que permitam identificar o estilo literário a que pertence. Assinale a alternativa que indique esses traços e a escola a que o trecho pode ser filiada.


Caía a tarde. No pequeno jardim da casa do Paquequer, uma linda moça se embalançava indolentemente numa rede de palha presa aos ramos de uma acácia silvestre, que estremecendo deixava cair algumas de suas flores miúdas e perfumadas. Os grandes olhos azuis, meio cerrados, às vezes se abriam languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavam de novo as pálpebras rosadas. Os lábios vermelhos e úmidos pareciam uma flor da gardênia dos nossos campos, orvalhada pelo sereno da noite; o hálito doce e ligeiro exalava-se formando um sorriso. Sua tez(1), alva e pura como um froco(2)de algodão, tingia-se nas faces de uns longes(3)cor-de-rosa, que iam, …

Exercícios sobre os Elementos da Comunicação

EXERCÍCIOS SOBRE OS ELEMENTOS DE COMUNICAÇÃO

1. O pai conversa com a filha ao telefone e diz que vai chegar atrasado para o jantar.
Nesta situação, podemos dizer que o canal é:
a) o pai
b) a filha
c) fios de telefone
d) o código
e) a fala

2. Assinale a alternativa incorreta:
a) Só existe comunicação quando a pessoa que recebe a mensagem entende o seu significado.
b) Para entender o significado de uma mensagem, não é preciso conhecer o código.
c) As mensagens podem ser elaboradas com vários códigos, formados de palavras, desenhos, números
etc.
d) Para entender bem um código, é necessário conhecer suas regras.
e) Conhecendo os elementos e regras de um código, podemos combiná-los de várias maneiras, criando
novas mensagens.

3. Uma pessoa é convidada a dar uma palestra em Espanhol. A pessoa não aceita o convite, pois não sabia falar com fluência a língua Espanhola. Se esta pessoa tivesse aceitado fazer esta palestra seria um
fracasso porqu…